São sete da manhã e estou num quarto de hotel no Porto com a persiana meio aberta, à procura de luz natural. A noiva ainda está de roupão. A mãe dela entra de dez em dez minutos para perguntar se está tudo bem. Há um vestido pendurado atrás da porta e um silêncio nervoso que eu já conheço muito bem.
Faço isto há treze anos e já maquilhei centenas de noivas. Se há uma coisa que aprendi é que o meu trabalho começa muito antes do pincel.
E que, mais cedo ou mais tarde, ela vai chorar.
A fotografia que melhor explica o meu trabalho
A imagem no topo desta página é de uma noiva a ler a carta do noivo, na manhã do casamento. Está a chorar. Reparem no que não aconteceu.
O rímel não escorreu. A linha do olho não borrou. A base não abriu na zona onde a lágrima passou. Aquilo que se vê na pele é a lágrima, não o estrago que ela costuma deixar.
Aquela fotografia não foi sorte. É o resultado de escolhas feitas semanas antes, na prova, e de uma forma de trabalhar que fui afinando durante treze anos. É a parte do meu trabalho de que tenho mais orgulho, e é também a razão pela qual muitas noivas me procuram.
Hollywood já prefere a maquilhagem que parece que não está lá
Durante anos, maquilhagem de noiva quis dizer a mesma coisa em quase todo o lado: base pesada, contorno marcado, olho esfumado escuro, lábio nude. Uma espécie de uniforme. Ficava bem na fotografia de estúdio e estranho ao vivo.
Isso mudou, e mudou primeiro em Hollywood.
Quem acompanha as passadeiras vermelhas dos últimos anos percebe logo. A pele deixou de ser uma superfície uniforme e passou a ter textura outra vez. Vemos sardas. Vemos poros. Vemos o brilho natural da zona alta da bochecha, aquele que aparece quando a pele está bem hidratada e não quando lhe atiramos pó por cima. O trabalho está lá, e é muito mais trabalho do que antes, mas não se vê.
Há uma razão técnica para esta mudança, e não é estética. É a câmara.
As máquinas mudaram. Um telemóvel de hoje capta detalhe a um nível que há dez anos exigia equipamento profissional. Nos casamentos, quase todos os convidados filmam em alta resolução, muitas vezes em câmara lenta e a poucos centímetros do rosto. Aquilo que antes ficava escondido pela distância agora aparece: a linha onde a base termina, o pó acumulado nas linhas de expressão, o contorno que ao vivo parecia suave e no vídeo parece uma sombra.
Por isso a técnica teve de se reinventar. Hoje trabalho por camadas finas, construindo cobertura só onde ela é precisa e deixando respirar tudo o resto. Uso menos produto do que usava há dez anos e demoro mais tempo. Preparo a pele com o mesmo cuidado com que antes se preparava só o olho, porque é a pele que aguenta ou não aguenta catorze horas de casamento.
A tendência tem nome lá fora, skin first, mas o nome interessa pouco. O que interessa é o resultado: a noiva olha-se ao espelho e reconhece-se. E a mãe dela, que a viu crescer, não diz "estás tão diferente". Diz "estás linda".
Aguentar lágrimas é uma decisão técnica, não um golpe de sorte
Aqui está o problema que quase ninguém explica às noivas: resistência à água e duração são coisas diferentes, e um produto pode ter uma sem ter a outra.
Uma base pode durar catorze horas e desfazer-se ao primeiro contacto com humidade. Um rímel pode ser à prova de água e ganhar aquele halo cinzento por baixo do olho ao fim de seis horas, não por causa das lágrimas, mas por causa da oleosidade natural da pálpebra. São falhas de origens diferentes e resolvem-se de maneiras diferentes.
Na zona dos olhos, que é onde tudo se decide, trabalho com fórmulas resistentes à água e fixo por camadas, deixando cada uma assentar antes da seguinte. Parece um detalhe. É a diferença entre uma lágrima que escorre por cima da maquilhagem e uma lágrima que a leva com ela.
Na pele, a lógica é outra. A durabilidade não vem da quantidade de produto, vem da preparação. Uma pele bem hidratada e equilibrada agarra a base e mantém-na no sítio. Uma pele seca ou oleosa demais empurra-a, e nenhum fixador do mundo resolve isso depois.
Há ainda um pormenor que só se aprende com anos de casamentos: a diferença entre chorar na cerimónia e chorar no copo de água. Na cerimónia, a noiva está fresca, a maquilhagem tem duas horas e aguenta quase tudo. Às onze da noite, depois do calor, dos abraços e da pista de dança, a mesma lágrima encontra uma maquilhagem cansada. É para a segunda situação que se trabalha, não para a primeira.
Os produtos não fazem o trabalho, mas decidem se ele dura
Há uma ideia romântica de que a técnica é tudo e o material é detalhe. Não é verdade, e quem já teve uma base a oxidar às cinco da tarde sabe disso.
O meu critério para escolher um produto é simples e não tem nada a ver com marketing. Testo primeiro em mim e depois em prova, e faço três perguntas. Como é que se comporta às oito horas, não às duas. Como é que reage ao calor e à humidade, que num casamento de verão no Douro não é um pormenor. E como é que aparece em vídeo com flash, que é onde a maioria dos produtos falha.
Renovo o meu kit várias vezes por ano e continuo a formar-me, em Portugal e fora. Foram mais de dez formações até hoje e a próxima já está marcada. Faço-o porque o que era o melhor produto há três anos hoje já foi ultrapassado, e porque uma noiva não tem uma segunda oportunidade de se casar bem maquilhada.
Trago comigo a escola brasileira, aquela que ficou conhecida pela pele que aguenta uma festa inteira. Aplico-a com a leveza que a fotografia atual exige.
O mais importante na maquilhagem de noiva é perceber exatamente o que a noiva quer
Vou dizer uma coisa que talvez soe estranha vinda de uma maquilhadora.
A parte mais difícil do meu trabalho não é técnica. É ouvir.
Uma noiva chega à prova com um telemóvel cheio de fotografias guardadas. Mas as fotografias raramente dizem o que ela quer de verdade. Dizem o que ela achou bonito noutra pessoa, com outro rosto, outra pele, outra luz e, muitas vezes, com filtro. Se eu copiar aquilo, faço um trabalho tecnicamente correto e entrego uma noiva que não se reconhece.
Então faço perguntas antes de abrir a maleta. Como é que costuma maquilhar-se no dia a dia. O que é que nunca gostou de ver no seu rosto. Se alguma vez se sentiu mascarada. Como vai ser o vestido, o cabelo, a luz da cerimónia, a hora do copo de água. Quem é o noivo e o que é que ele está à espera de ver quando ela entrar.
Muitas vezes a resposta que interessa aparece a meio da conversa, quase por acidente. Uma noiva disse-me que só queria "não parecer eu numa festa de Carnaval". Outra confessou, com algum embaraço, que tinha medo de o pai não a reconhecer. Nenhuma das duas me tinha mostrado isso numa fotografia.
Depois disso faço a análise visagista. Estudo as proporções do rosto, os ângulos, a direção do olhar, o tom e a subtonalidade da pele. Desenho a maquilhagem a partir da estrutura que já existe, não a partir de uma referência. É por isso que insisto sempre na prova, semanas antes. Não é para testar cores. É para chegarmos as duas ao dia do casamento a saber exatamente o que vai acontecer.
No dia, quero que a noiva não pense na maquilhagem nem uma vez. Nem para se retocar, nem para se preocupar. Se ela se esqueceu de que está maquilhada, eu fiz bem o meu trabalho.
Noivas que vêm de fora
O estúdio fica no Porto, na Travessa de Nova Sintra, mas boa parte do meu trabalho acontece noutros sítios.
Recebo pedidos de noivas de outros distritos, que combinam a prova numa deslocação ao Porto e me pedem para estar com elas no dia, onde quer que seja o casamento. Douro, Braga, Guimarães, Viana do Castelo. E recebo casais que escolhem Portugal para casar e tratam de tudo à distância, em inglês, até chegarem ao país poucos dias antes.
Quando uma noiva de outra cidade se desloca só para fazer uma prova, isso diz-me mais do que qualquer número.
O que elas dizem depois
Não sou eu que devia estar a escrever esta parte, por isso deixo as palavras delas. Estão públicas, com nome, no Google.
Fiz a maquilhagem do meu casamento com a Lari e não poderia ter feito melhor escolha. Ela é incrível, o makeup perfeito, é um amorzinho e super profissional.
Larissa é incrível. Fez a maquilhagem para o meu casamento e ficou perfeita. É muito atenciosa e uma ótima profissional. A maquilhagem ficou intacta por toda a noite. Obrigada por fazer parte de um dos dias mais importantes da minha vida.
Reparem no que elas destacam. Não é a técnica. É a atenção e a tranquilidade. Isso não me surpreende. A técnica é a base, é o mínimo que se exige a um profissional. O que fica na memória de uma noiva é a manhã inteira.
Olhando para as avaliações das noivas, sou hoje uma das maquilhadoras mais procuradas do Porto e do norte de Portugal. Não escrevo isto com vaidade. Escrevo porque foram elas que o construíram, uma de cada vez.
Uma última coisa
Se está a planear o seu casamento e ainda anda a guardar fotografias de inspiração, guarde. Traga-as todas. Mas venha também com as suas dúvidas e com aquilo de que não gosta no seu rosto, que costuma ser a informação mais útil que uma noiva me pode dar.
E não se preocupe com o choro. Isso é comigo.